Quartas, às 24h, na TV Brasil
(Canal 2, 18 NET, 166 SKY)
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Assista aqui o último programa na íntegra!
Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
Programa - 012/856 - 31-08-13
REVISTA - CIDADE CINZA

No documentário Cidade Cinza, Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, registraram a história de uma das principais crews de arte de rua de São Paulo, composta pelos grafiteiros OsGemeos, Nunca, Nina, Ise, Finok, Zefix, entre outros, mas, ao registrar os passos destes artistas, ao observar a cidade sob a ótica do grafite, o filme encontrou um personagem muito importante na trajetória de qualquer artistas de rua, famoso ou não: São Paulo. A cidade caos, a babilônia tupiniquim, a cidade acidente, um não-lugar por excelência. Sim, mais amor em SP, por favor. A arbitrariedade é um traço muito comum por essas bandas, e este modus operandi pautado pelo acaso e pelo “jeitinho”, pela mentalidade do colonizado extrativista, resulta numa cultura de improviso institucional que termina por ser uma marca de nossas políticas públicas, de nossas políticas culturais e, por fim, marcam a biografia de nosso povo. Este filme não é um retrato de toda a cena de grafite de SP; não é um resgate de seu histórico; não é sobre se é arte ou não; não trata da perda da essência transgressora do grafite quando enclausurado no cubo branco das galerias e dos museus. Este documentário retrata um dos principais fronts da Paulicéia: as ruas – ao mesmo campo de batalha e ponto de confluência onde a miopia cultural, a carência social e a completa falta de planejamento urbano, buzinam mais alto. Entre o caos e a descrença paulistana, o grafite é a voz surda e cimentada desta cidade brutalista, uma ponte acidental entre os habitantes deste aborto estético-urbanístico, um dos poucos movimentos da atualidade em que os jovens se expressam.

O projeto do filme teve ponto de partida quando em julho de 2008, nesta que uma das maiores e mais populosas metrópoles do mundo, um muro localizado na avenida 23 de Maio de dimensões não indiferentes – de quase 700 metros quadrados - amanheceu pintado inteiramente de cinza. Os autores da benfeitoria: uma das muitas unidades de restauração e preservação do patrimônio público contratadas pela Prefeitura de SP, um serviço terceirizado que consiste em cobrir com uma tinta de cor cinza a base de cal, áreas danificadas da cidade.

Pois bem, o problema mora no fato que debaixo daquela tinta cinza novinha está um dos principais murais de grafite de uma das principais turmas de arte de rua do mundo; sendo que, naquele mesmo momento, Nunca e Os Gêmeos estavam em Londres pintando o lado de fora da Tate Modern, ao lado da nata da arte de rua do planeta, participando de uma exposição que foi um marco mundial no reconhecimento das instituições de arte tradicionais a esse fenômeno do grafite, que nasceu nos anos 80/90, embebido da cultura hip hop, ou seja, a cultura de rua nova-iorquina e, pouco depois, mesclou-se com o mundo da arte por meio de Basquiat, Haring e Warhol, e que chegou no século 21 com uma linguagem nova criada por artistas como Banksy, Blu, JR e, os brasileiros, OsGemeos, Nunca, Speto e Nina [só para citar alguns]. O episódio do mural sendo apagado por um equívoco da empresa terceirizada pela Prefeitura para cumprir as premissas do programa Cidade Limpa é só mais um exemplo do descuido, da falta de conhecimento da própria cultura. No passado o skate já foi proibido.

Hoje, o respeito pelo ciclistas praticamente inexiste, áreas verdes de fácil acesso, nem se fale - pelo tamanho das calçadas percebe-se o que São Paulo e seus governantes projetam para os seus habitantes. Além do mais, os grafiteiros representam e verbalizam outro lamentável lugar comum da cultura brasileira: quantos artistas tiveram que fazer sucesso no estrangeiro para ser reconhecidos no Brasil? No material bruto do filme, Otávio Pandolfo, um d’OsGemeos, com a Tate Modern nas costas, ri – com ar de desdém - lembrando-se da forma com que eram tratados por museus e galerias. Esta é uma história que se repete nas mais diversas áreas: quantos brasileiros, artistas e não artistas, ascenderam socialmente sem nenhuma formação acadêmica? E tem mais: num lugar em que tudo está quebrado e sujo, por que alguém deveria pedir autorização para modificar alguma coisa? Num cenário de ausência e omissão do poder público, o que impede alguém de pintar ou pixar a parede do lugar que habita? Pior: e se este cidadão que uma vez foi visto como um vândalo agora for um artista reconhecido no estrangeiro, somente devido ao seu valor de mercado e status, ele tem a permissão de cruzar o que é público e o que é privado? Questões levantadas pelo documentário Cidade Cinza.


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