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Rogério Sganzerla, signo de luz incandescente
20/06/2010 - 22:10

Tento compreender a vida pelo movimento cíclico, e sob este signo do infinito, Rogério Sganzerla despontou como uma luz que me trouxe o cinema, em diferentes momentos, mas todos eles, inexplicavelmente conectados.

Conheci o Rogério em 1994, quando fazia faculdade de jornalismo na PUC de BH. Tinha de fazer uma monografia para concluir o curso, o meu tema e da minha queridíssima amiga Ana Virgínia, era Seja Marginal seja herói, um estudo da vanguarda nas décadas de 1960 e 70 no Brasil, tendo como foco os filmes O Bandido da Luz vermelha, do Rogério, e O Anjo nasceu, do Julio Bressane. Meu orientador na época era o Roberto Moreira, começava uma história que determinaria a minha vida.

Descobri ali o meu amor incondicional pelo cinema em filmes que eram um mistério, um enigma, quase um oráculo ainda, mas absolutamente irresistíveis. Foi o passo primordial para que eu fizesse desta a minha trilha como jornalista. Lembro-me que vim ao Rio, eu e minha amiga, imbuídas de um espírito ingênuo, bobinho, encantadas com aquelas pessoas que faziam filmes tão livres, iconoclastas, míticos para mim na época. Fui à casa do Rogério na Urca, conversamos longamente, saí de lá com o coração triste, queria vendo-o filmando, filmando muito.

Terminei meu curso, encontrei o Rogério ainda muitas vezes em festivais, ele sempre delicado, generoso, encantador e particularmente engraçado, dono de um senso de humor único.

Mais tarde levei adiante o meu projeto de mestrado sobre ele, li o livro Por um cinema sem limite, que ele autografou para mim com uma das dedicatórias mais lindas que já recebi, e resolvi estudar o riquíssimo acervo de críticas que ele escreveu em São Paulo, (um dos mais lúcidos conjuntos de textos críticos que já li), e relacioná-los com o cinema que ele fazia. Usei aqueles textos como base teórica para toda a inventividade que ele estabeleceria em sua cinematografia. Busquei obstinadamente este mestrado, e fiz a metade dele em uma cama de hospital, depois de um acidente de carro...

Aqui no Rio conheci o Sérgio Cohn da Azougue (Editora), a mesma que havia lançado a coletânea de criticas do Rogério, e mais uma vez se deu o inexplicável, uma empatia imediata, e no nosso primeiro encontro o Sergio me convidou para fazer o livro do Rogério da coleção Encontros. O fiz em várias tardes de “encontros” no mesmo apartamento da Urca, desta vez na companhia da Sinai, filha do Rogério, doce, inteligente e generosa.

O livro me trouxe uma sensação maravilhosa de poder levar para mais gente a genialidade do Rogério, e poder recuperar entrevistas que em breve serão pó, pela forma como têm se deteriorado em acervos como o do MAM, aqui no Rio.

Agora, há uma semana, recebi o convite do Itaú Cultural para ir a São Paulo visitar a Ocupação Rogério Sganzerla aqui pela Revista. Quem é o responsável pela Ocupação? O Roberto Moreira, agora Roberto Cruz, o mesmo que há quase vinte anos me ajudou a abrir a trilha de luz própria da obra do Rogério na faculdade de jornalismo....Permanentemente e miticamente Rogério se faz presente na minha vida, na minha busca por saber mais, por entender mais os códigos infinitos do cinema e de sua conexão com a vida.

A Ocupação é uma experiência particular para quem ama o Rogério, é como se pudéssemos compartilhar um pouco do seu espírito, da complexidade genial e logicamente emaranhada de suas idéias, da sua visionária lente sobre o mundo. Durante a tarde que fiquei lá vi muitos, muitos jovens olhares curiosos sobre aquele cara que parece sair do hoje, despertando uma vontade irresistível de se saber mais sobre ele.

Fica o desejo de que ele estivesse aqui, filmando, tornando o mundo mais interessante e mais inteligente. Voltei de São Paulo com vontade de que aquela Ocupação fosse eterna, permanente, uma fonte para as mentes insaciáveis que querem um mundo mais irreverente, artisticamente mais rico, genial e bem humorado.

Beijos,
Roberta Canuto






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